Dia internacional da luta da mulher.
Uma das poucas vezes que a discussão da opressão de gênero pode ser feita e levada a sério. Que chamar a mulher de "minoria" oprimida não é algo retrô e superado na sociedade. Que a desigualdade de condições entre os sexos não é naturalizada e ignorada.
Também é, provavelmente, o dia mais opressor do ano em relação à questão de gênero. Um dia de luta, no qual é preciso ouvir 432 vezes um "parabéns", como se fosse um dia de comemoração da presença da genitália feminina. A lista de piadinhas é enorme, vai desde a mulher precisa ter um dia porque os outros 364 dias do ano são dos homens até à criação de um dia do homem (afinal é preconceito que só a mulher tenha o seu dia).
Não é por acaso que existe o dia de mulher, do negro, do índio. Minorias numéricas ou não, são todos oprimidos e à margem da sociedade. Também não é coincidência que a mulher pobre, a mulher negra sofram mais e ganhem menos do que a de uma classe abastada. A pobreza, o racismo, o patriarcado são todos sustentados por uma mesma estrutura de sociedade, que depende visceralmente dessas desigualdades.
Hoje é quinta-feira. Mundialmente famoso por ser o dia no qual mais ocorrem coisas estranhas (ou assim eu quero acreditar). Também acabei de ficar sabendo que minha querida mãe -já quase nos cinquenta, por incrível que pareça- acabou de perder o emprego (no governo PMDB) por decorrência política de uma greve, minto, manifestação de educadoras do serviço municipal. Muito pano pra manga, muita idéia na cabeça e tudo que eu queria era só escrever poesia.
Não me levem a mal, poesia
Ruas desertas de fim de férias, ameaça de chuva e frio de 17ºC anunciando o inverno, uma problema na companhia de luz e a bola é batida quase às escuras como foi, talvez, um dia no passado do qual sinto a falta mas nunca presenciei.
Quatrocentos e oitenta e quatro dias. É muito mais do que o necessário para um neném nascer, um governo cair ou mesmo uma revolução acontecer. Foi a última vez em que me lembro de comemorar a vitória de um Atletiba, um placar apertado de 2x1 ali no Alto da Glória. Aí veio aquele ano estranho, sem um classico, com o Paraná sendo o melhor time do estado no Brasileiro e o Lula sendo reeleito. FAzer o quê, nem tudo são rosas.
Aí veio o dia de hoje que vocês já conhecem, foi descrito ali em cima. Aquele bom e velho radinho sintonizado na CBN e um pênalti duvidoso (segundo quem os viu) abre o placar para os inimigos alviverdes. Ah, que tristeza. Me sinto como meu pai ouvindo o jogo do Palmeiras naqueles felizes Brasileirões de 72 e 73. Também sinto a angústia do colombiano Ferrera não conseguir armar sozinho o ataque do glorioso time da baixada. Acho que essa última parte o técnico Vadão também sentiu e, aos 19 do segundo tempo trocou Cristian por Evandro (autor do único gol do último Atletiba no Caldeirão). E foram dois minutos pro capitão Marcão marcar um gol. O primeiro, depois de 484 dias de angústia. Dois minutos. O tempo que levou para Ferreira virar o jogo e, novamente, depois de um ano e quase quatro meses o gostinho de estar ganhando do time coxa-branca, aos 23 do segundo tempo.
Alegria de pobre dura pouco ou qualquer outro clichê do futebol para justificar, a comemoração durou sete minutos. Foi o tempo para o zagueiro coritibano com nome de astro de novela mexicana, Daniel Cruz, empatar o jogo.
E a cidade, que amanheceu cinza, dorme fria e silenciosa. Torcendo para não precisar esperar mais um ano para ver alegria em seu maior jogo (e que venha pintada de vermelho e preto)
Todo mundo já ouviu falar de Mahatma Ghandi. O cara foi o líder de uma revolução, na Índia, sem precisar de uma arma de fogo, um ótimo caso para ser contado e usado como referência. Outro dia em um painel com um professor da UFRGS ele comentou sobre Ghandi e como ele (como líder) e sua revolução foram um foco de resistência enquanto o mundo capitalista vigorava. Depois ele comentou sobre os estudantes que participam do movimento estudantil e ninguém melhor do que nós, que participamos, para saber que somos poucos. Até onde a universidade e seu sistema não tem culpa nisso? A frase dele foi "quantos alunos entram na universidade como Ghandis? E quantos Ghandis se mantêm como Ghandis?".
Lembrei disso outro dia, vendo o filme Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim. O filme é sobre as escolas brasileiras e sua precariedade, mostra a periferia de São Paulo, interior do Rio, interior de Pernambuco, entre outros lugares. Mas o que me importa aqui é a fala da menina do colégio Santa Cruz, uma escola particular de São Paulo. O grupo de amigas comentava, indignadas, como não adianta nós, pessoas de classe média conscientes das mazelas do mundo, assistirmos a isso de dentro da nossa bolha, ficarmos tristes mas nada fazer; é preciso "sair de dentro da bolha". Hoje a menina cursa engenharia na USP. Até onde continuou ela como Ghandi?
(e foi eu sair da sala do cinema pra ver, em carne e osso, uma situação parecida. Nenhum dos meus amigos, provavelmente tocadíssimos com as histórias, quis comentar sobre o filme. Versão fast-food)
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